Ação na Cracolândia é "operação-empurra", reclamam comerciantes
Mauricio Stycer
Morador e comerciante instalado há 48 anos no bairro de Campos Elíseos, Luiz Augusto de Oliveira Sales encontrou recentemente uma jovem dormindo na porta do seu centro estético, na Alameda Barão de Limeira. “Era uma moradora da região da Luz que veio parar aqui”, conta Sales. “Ela me disse: ‘Vim pra cá porque estão batendo na gente lá.’ Quer dizer, estão empurrando o problema”.
Insatisfeito com a ação desencadeada pela Prefeitura de São Paulo na Cracolândia, Sales desabafa: “o que está havendo é uma migração”.
Em nome da Associação dos Moradores e Comerciantes dos Campos Elíseos, Sales diz sonhar com a descoberta de “uma brecha na lei” que permita “recolher esse pessoal” (os moradores de rua da Cracolândia) mesmo contra a vontade deles. “Todo tipo de solução que a gente pensa esbarra na lei”, lamenta.
Sales conta que, há três anos, apoiou a instalação de mangueiras sobre duas lojas na Barão de Limeira com o objetivo de afugentar os moradores de rua que dormiam sob a marquise à noite. “Havia muita reclamação”, conta. “Mas hoje eu falo: esquece esse negócio de mangueira”.
Uma área especialmente afetada pelos moradores de rua que vagam pelo centro é o setor hoteleiro. “Diferentemente de outras áreas do comércio, os hotéis não fecham”, diz Adolfo Anido, proprietário do Hotel Castelar, na rua Aurora. “Há muita reclamação de clientes”, afirma. “Perdemos entre 15% e 20% da clientela nos últimos tempos”.
Anido reconhece uma melhora, desde o início da operação da Prefeitura na região. “Mas não sabemos até que ponto é uma ação duradoura. Espero que seja”.
Em julho houve duas manifestações de comerciantes na região. A primeira, no dia 9, aniversário da Osesp, reuniu cerca de 100 manifestantes em frente à Sala São Paulo. A segunda, no dia 28, reuniu cerca de 300 comerciantes, que marcharam pelas ruas da região, cobrando resultados do Estado.
“Vejo uma ação policial forte, mas não vejo uma ação de recuperação desses indivíduos”, lamenta Paulo Garcia, diretor da Associação dos Comerciantes do Bairro da Santa Ifigênia. “Se você espancar um sujeito desses na rua Guaianases, no dia seguinte ele estará na avenida São João e no outro dia em Higienópolis”, critica.
Na visão de Garcia, a Prefeitura não tem interesse em resolver o problema definitivamente. “A Cracolândia serve como justificativa do projeto de reurbanização da Luz, que é o objetivo principal do governo”, diz.