| Hoje é Dom 01 Ago, 2010 06:20 am |
Ano foi bom, mas faltou dinheiro, diz Kassab; leia entrevista
EVANDRO SPINELLI
Apesar dos bairros alagados na zona leste, da crise financeira da prefeitura, do aumento da sujeira, do IPTU e da tarifa de ônibus e o fim da restituição da taxa da inspeção veicular, São Paulo vai terminar 2009 melhor que começou, diz o prefeito Gilberto Kassab (DEM).
Kassab afirma que faltou dinheiro neste ano, por isso o crescimento da cidade foi menor que o esperado, mas que 2010 vai ser melhor, com uma situação financeira mais equilibrada.
Nesta entrevista à Folha, Kassab critica quem o chama de "prefeito ioiô" e defende a candidatura de Aloysio Nunes (PSDB) ao governo paulista.
FOLHA - Em seu discurso de posse o sr. dizia que ia fazer de tudo para fazer a cidade de São Paulo melhor em 2009 que em 2008.
GILBERTO KASSAB - E isso está melhor, está acabando melhor. Com certeza. Eu afirmo. Vamos pegar ainda hoje, eu inaugurei a 15ª AMA Especialidades. Na saúde tivemos outras AMAs, tivemos o aumento dos programas, aumento de PSF [Programa de Saúde da FamÃlia], trouxemos novos parceiros para a rede, novas parcerias. Na educação a mesma coisa: novas escolas, novos CEUs em funcionamento, mais vagas em creche. Está melhor. Eu afirmo que a cidade está melhor. O trânsito melhorou. Algumas leis deram certo. A Lei dos Fretados deu certo, a Cidade Limpa se consolidou. No Verde e Meio Ambiente, a inspeção veicular se consolidou, criamos mais parques. Melhorou. Vai falar: "poxa vida, mas não foi o mesmo ritmo de crescimento". É, não foi, mas avançou.
FOLHA - Avançou menos do que o sr. previa ou queria?
KASSAB - Querer, na vida pública, quer o máximo possÃvel. Mas avançou de acordo com as possibilidades do nosso Orçamento. Os recursos foram bem investidos, os programas foram bem coordenados, bem implantados. Recentemente, você vê, a 25 de Março não tem mais camelô, o modelo do convênio com a PM deu certo. Então, está melhor.
FOLHA - Foi um bom ano para São Paulo?
KASSAB - Foi um bom ano para São Paulo. Nós temos um compromisso, no nosso plano de metas, de três corredores de ônibus: o corredor Celso Garcia, o corredor Cidade Tiradentes e um corredor na zona sul. Nós já demos o start, o inÃcio das ações, para fazer os três corredores. O Celso Garcia vai ser metrô, mais que monotrilho. Então, as coisas andaram. Fomos atrás do recurso, emenda da bancada [de deputados de São Paulo] é da prefeitura, em entendimentos com o governo do Estado e o governo federal. A transferência de verba para o metrô: já fechamos o processo dos R$ 2 bilhões para os oito anos. Nós já passamos, até agora, mais de R$ 300 milhões, nós estamos com quase R$ 700 milhões da venda da folha [de pagamentos dos servidores] para o Banco do Brasil, que já totalizam R$ 1 bilhão, e algumas operações financeiras que estão em andamento, que estamos procurando fazer alguns estudos para consolidar e estamos muito otimistas quanto ao encaminhamento das negociações favoráveis. Na questão do meio ambiente, São Paulo é referência hoje, com a legislação moderna, Lei de Mudanças Climáticas. Na questão do meio ambiente nós avançamos muito. E acho que uma das grandes marcas desse primeiro ano é a questão da transparência. Acho que é muito significativo, enfrentamos num primeiro momento a incompreensão de alguns, seja de fornecedor da prefeitura e de servidores também, e com o tempo as próprias pessoas viram que isso vinha em defesa de seus interesses, porque a transparência ajuda. Hoje, ninguém mais questiona isso. O Supremo Tribunal [Federal] nos deu uma manifestação muito positiva em favor da tese, nos dando a possibilidade de dar sequência a esse processo, e vamos continuar avançando para que tenhamos a oportunidade de oferecer mais transparência ainda.
FOLHA - A cidade encerra o ano com a imagem de ser suja e alagada, com bairros alagados.
KASSAB - A imagem é errada. A cidade não está suja. O tema da limpeza urbana quem levantou fui eu. Levanto e sustento até hoje. São Paulo não é uma cidade rica. Nós investimos em saúde, nesse ano que fechou, 2009, em dinheiro do Tesouro, aproximadamente R$ 3,6 bilhões e, em limpeza urbana, aproximadamente R$ 1,2 bilhão, envolvendo aterro, restos a pagar, varrição, coleta e algumas outras ações envolvendo limpeza. Nós temos um terço do que se gasta em saúde em limpeza urbana. Então, algo está errado, porque não é possÃvel que numa cidade que não é rica, onde mais de 7 milhões de pessoas dependem dos serviços de saúde, nesses serviços de saúde nós temos quase mil equipamentos, centenas de convênios, dezenas de programas, profissionais qualificadÃssimos, que fazem até cirurgia, você gastar apenas três vezes mais. Eu não quero questionar aqui a questão de número e evidentemente não concordar que se São Paulo gasta R$ 1,2 bilhão em limpeza urbana, se gastasse R$ 3 milhões ficaria um brinco. É evidente. Mas eu não entendo que, quando as pessoas fazer essa análise não façam também a análise de que, se fosse R$ 6 bilhões em saúde também não ficaria muito melhor e as pessoas precisam mais. Então, é muito questionável e eu procuro sempre alertar a cidade que deve-se tomar cuidado porque o lobby das empreiteiras é muito presente, e os usuários que dependem do sistema público de saúde não têm lobby. Eu estou ao lado dos 7 milhões de cidadãos que dependem do sistema de saúde. Não quero dizer que não quero limpeza na cidade. Quero, mas é evidente que é claro que o lobby das empreiteiras da limpeza urbana é muito forte e eu quero que com esses recursos eles trabalhem bem. É um recurso muito expressivo para uma cidade da dimensão de São Paulo e com os problemas que ela tem.
FOLHA - O sr. não acha que, desde o começo da discussão do valor, a cidade ficou mais suja?
KASSAB - Se está mais suja é porque as empresas estão fazendo corpo mole, porque elas estão recebendo a mesma coisa. E a fiscalização é importante que seja feita e as penalidades aplicadas, porque efetivamente, se fossemos atender os interesses das empreiteiras, elas têm um apetite insaciável.
FOLHA - E a questão dos bairros alagados?
KASSAB - Primeiro, nunca foi investido tanto em drenagem quanto na nossa gestão. Os números são inquestionáveis. O que existe, no caso especÃfico da zona leste, é uma região há muitos anos, eu diria décadas, quase trinta anos, sendo ocupada irregularmente por famÃlias desesperadas, que não encontram outro lugar para morar e acabam, nesse desespero, encontrando essa região para morar. E pela primeira vez o poder público apresentou uma solução, e não foi agora, foi dois anos e meio atrás, quando começamos a idealizar o parque Várzeas do Tietê, liderados pelo governo do Estado. É um projeto, nesse projeto está prevista a transferência dessas famÃlias para moradias construÃdas pelo poder público. O que aconteceu neste ano foi a constatação que a impermeabilização irregular desta área chegou no seu limite, e chegando no seu limite a qualquer chuva a área fica alagada, mas isso não é surpresa, tanto é que foi apresentada a criação desse parque. Mas, por conta dessa situação que se tornou crÃtica em função desse momento, que é o momento limite, o ponto crÃtico de impermeabilização, nós estamos antecipando a transferência das famÃlias. Num curto prazo oferecendo auxÃlio aluguel, mas desde já oferecendo uma moradia que vai ser construÃda, muito possivelmente as obras iniciadas em seis meses e entregues em aproximadamente dois anos. É uma solução para um problema que já tinha sido identificado e pela primeira vez enfrentado. Teve visibilidade porque são milhares de famÃlias atingidas, mas a prefeitura acertou nessa questão porque já algum tempo atrás entendeu que era crÃtica a situação e apontou soluções.
FOLHA - A maior parte da ocupação é regularizada.
KASSAB - Seja na área regularizada ou seja na área que não seja regularizada, nós chegamos a um ponto limite de impermeabilização, e isso já tinha sido apontado. O que está sendo feito agora, no levantamento, para que possamos na construção desse parque identificar as áreas e as famÃlias que precisam ser transferidas.
FOLHA - A cidade não erra ao não planejar corretamente a cidade e deixar com que a impermeabilização afete toda a cidade?
KASSAB - Houve, ao longo das últimas décadas, um crescimento em algumas áreas desordenado. Na região do Pantanal, do Jardim Romano e comunidades adjacentes isso foi identificado e está sendo corrigido com esse projeto. Em outras regiões da cidade, obras e investimentos expressivos. Vamos citar aqui o mais expressivo de todos que é o Aricanduva. Nós temos, na nossa gestão, quase R$ 200 milhões investimentos para corrigir a ocupação desordenada, e está sendo corrigido. Tanto é que nessas chuvas, que foram as mais intensas da história da cidade de São Paulo, nós não tivemos na bacia do Aricanduva pontos de alagamento. Além dessas obras ainda estão em construção mais quatro reservatórios, na bacia do Pirajussara a mesma coisa, seja com a construção do piscinão seja com os investimentos de drenagem na região. Então, o que acontece em algumas regiões da cidade são investimentos para corrigir os equÃvocos do passado.
FOLHA - E em outras áreas o que está sendo feito para que não se agravem os problemas atuais ou ocorram novos problemas?
KASSAB - São levantamentos que você procura direcioná-los e harmonizá-los com o crescimento da cidade. O papel dos estudos de drenagem é fundamental nos estudos de crescimento da cidade.
FOLHA - São Paulo está preparada para crescer mais?
KASSAB - Está preparada para crescer mais desde que continuem sendo feitos os investimentos que acontecem na cidade hoje: transporte público, drenagem, saúde pública, educação. A cidade não vai parar. Ela reduziu o ritmo de crescimento, e vai manter o crescimento nesse ritmo reduzido. Isso é normal e são fenômenos que aconteceram já nas grandes cidades da Europa e do mundo. Chega um momento em que o ritmo de crescimento diminui.
FOLHA - 2010 vai começar com aumento de ônibus, aumento de IPTU e sem a restituição da taxa da inspeção veicular.
KASSAB - Em relação à tarifa de ônibus, pela primeira vez depois de muitos anos nós tivemos três anos sem reajuste. A cidade tem prioridades, uma delas é o transporte público eficiente e o mais barato possÃvel. Mesmo com esse reajuste ainda é uma tarifa que pode ser entendida como, comparativamente com outras cidades, bastante razoável. Com esse valor muitos municÃpios fazem uma viagem só. Em São Paulo são três horas de viagem, numa cidade em que o custo de vida é muito maior. Então, a tarifa era algo esperado. Seria ótimo se pudéssemos não fazer o reajuste, mas é uma necessidade. Nós temos necessidade de investir em habitação popular, em saneamento, em limpeza urbana, em ensino.
Em relação ao IPTU, agora definitivamente foi corrigida uma distorção que existia na cidade. Agora há a obrigação de, de dois em dois anos, ser atualizada a planta genérica. O IPTU é um tributo sobre o valor do imóvel. Então, esse valor tem de ser atualizado. E agora de dois em dois anos ele será atualizado.
O terceiro item que você falou é a inspeção veicular. O que aconteceu foi uma resolução nacional que torna obrigatória a inspeção veicular para todo municÃpio do Brasil, em toda cidade em qualquer Estado. A partir do momento em que ele é obrigado a fazer, você tem o seu automóvel, é um custo que você tem. É algo, a partir de hoje, inerente aos proprietários de veÃculos, de caráter obrigatório, com o seu custo. Não tem sentido na cidade de São Paulo, que foi a primeira a implantar esse programa, e a decisão foi tão correta e tão acertada que agora o Brasil inteiro tem esse programa, não tem nenhum sentido, já que o proprietário seja obrigado a fazer isso, você dar algum incentivo, mesmo que seja em função do meio ambiente. Porque são recursos expressivos que tinham justificativa na questão do meio ambiente, mas que agora não tem mais, porque o proprietário é obrigado. Já que ele é obrigado, vamos usar esse recurso não para privilegiar o proprietário do veÃculo particular, porque a questão do meio ambiente está resolvida. Questione, então, a resolução nacional, que eu sou a favor. Falo como prefeito e como cidadão. E esse recurso agora terá direcionamento para outra área: transporte público, meio ambiente, saúde... A partir de agora o proprietário irá arcar com essa despesa que já ia arcar algum dia. Quando da sua implantação nós até dizÃamos que seria feita uma diminuição gradual [do reembolso], mas com essa nova resolução nacional não tem nenhum sentido. Não é justo socialmente.
FOLHA - O sr. sabe quanto o sr. vai economizar em subsÃdio à s empresas de ônibus com o aumento da tarifa? Este ano foram mais de R$ 700 milhões.
KASSAB - Foram R$ 600 milhões. A diferença, que alguns equivocadamente atribuem a subsÃdio é a renovação da frota, quando três anos atrás nós incentivamos a renovação para que as empresas comprassem ônibus com acessibilidade.
FOLHA - Neste ano não teve praticamente nenhuma renovação. Foram menos de cem ônibus.
KASSAB - Existe a renovação que o contrato prevê anualmente e existe aquela renovação incentivada por conta da antecipação da renovação. São coisas distintas. Então, os R$ 600 milhões de subsÃdios não terão este ano. A ideia é R$ 360 milhões para renovação de frota desde que venham os R$ 200 milhões que a SPTrans vai receber do governo do Estado por conta da licitação da bilhetagem. Então, no transporte, esses R$ 200 milhões vão fazer com que a gente não precise dar subsÃdio, ficando só os custos da prefeitura com a renovação da frota. [O aumento da] tarifa vai nos permitir ter só esses R$ 360 milhões.
FOLHA - E qual é a economia com a inspeção veicular?
KASSAB - Se todos os veÃculos fossem fazer a inspeção veicular, terÃamos um custo de aproximadamente R$ 300 milhões. Nem todos farão.
FOLHA - Com isso tudo o sr. vai conseguir economizar um bom dinheiro, além do aumento da receita com o aumento do IPTU, o dinheiro da licitação da bilhetagem e a venda da folha de pagamentos para o Banco do Brasil. O ano que vem será melhor financeiramente?
KASSAB - O ano que vem vai ser um ano, do ponto de vista financeiro, melhor. Evidentemente nós vamos trabalhar com essa expectativa. Não podemos descartar a precaução nos primeiros meses para que a economia se consolide. Não vamos imaginar que a receita compulsoriamente vá atender à nossa expectativa, mas esperamos que sim. E caso isso aconteça nós vamos poder retomar um bom nÃvel de investimentos em saúde. Já tivemos este ano R$ 3,6 bilhões, ano que vem existe a hipótese de chegarmos a R$ 4 bilhões. Se mantivéssemos os R$ 3,6 bilhões seria extraordinário, seria um número muito significativo. Na educação também, nossa expectativa é continuar atendendo as nossas metas. Será um ano que poderá ser bem melhor que 2009. 2009 foi melhor que 2008, esperamos que comparativamente o Ãndice de melhora em 2010 possa ser melhor ainda, seja mais intenso, mais expressivo.
FOLHA - O sr. é acusado ser o prefeito ioiô, que testa, não dá certo, muda. O sr. não se sente mal com isso?
KASSAB - Na verdade, as crÃticas são muito bem-vindas, porque felizmente eu acredito na democracia. Só falta alguém achar que um prefeito, um executivo, apresenta um projeto e não admite aperfeiçoamentos. Então, vamos fechar o Legislativo, vamos fechar a imprensa, e aà vamos estar correspondendo a avaliação de alguns. O ioiô é uma maneira muito depreciativa de pessoas maldosas que afinal de contas não entendem que quando se apresenta um projeto, se apresenta para discuti-lo. O Poder Legislativo é feito para aperfeiçoar, não é feito para aprovar, é feito para debater, para discutir, para aperfeiçoar. O Executivo, quando coloca uma ideia, através da imprensa conversa com a opinião pública, que tem o objetivo de discuti-la. O ioiô é uma maldade que não causa eco, até porque quem acompanha sabe do perfil da nossa administração, muito conciliador, que tem uma humildade muito grande para aperfeiçoar aquilo que pode ser aperfeiçoado, jamais eu teria essa associação. Não vejo nenhum sentido nessa manifestação de alguns poucos. Na verdade, é o comportamento de alguém que acredita na democracia, acredita na imprensa, no Ministério Público, no Legislativo. Não sou dono da verdade. Se fosse, projeto apresentado, projeto aprovado, projeto executado. Não é bem assim. O papel da imprensa é discutir, fazer crÃticas. O papel da Câmara é aperfeiçoar, debater, emendar. É muito simples as pessoas falarem que eu volto atrás. Não volto atrás. É uma gestão que tem muita compreensão do seu papel e da importância do debate.
FOLHA - Quando a imprensa diz que "Kassab recua", como o caso da proibição dos fretados na Berrini, mais atrás no rodÃzio em julho, te incomoda?
KASSAB - Vamos pegar o caso dos fretados. É uma maldade, porque [a restrição aos] fretados foi implantada, o trânsito melhorou, os Ãndices melhoraram, o projeto deu certo. Foram feitos alguns ajustes no debate da consolidação do projeto quando ele foi apresentado. E continuam sendo feitos ajustes, até porque a cidade se transforma, você com o tempo vai observando onde tem falhas. É maldade, são pessoas que não têm a compreensão da importância do debate.
FOLHA - Isso te incomoda?
KASSAB - Nem um pouco. O cargo de prefeito está sujeito a crÃticas. As crÃticas são bem-vindas. Muitas vezes elas nos ajudam a aperfeiçoar as ideias, os projetos, assim como os aplausos nos ajudam, nos estimulam, nos incentivam. Tenho muita tranquilidade em relação à s crÃticas, em conviver com elas. Só falta eu achar que a gente acerta em tudo.
FOLHA - Como pessoa e como polÃtico, o sr. é muito conciliador, já demonstrou isso quando foi vereador e deputado.
KASSAB - Eu procuro fazer um exercÃcio permanente de humildade. Até porque, se nós tivermos essa consciência, é muito mais fácil agregar. Temos que partir do princÃpio de que todos querem ajudar, cada um tem a sua visão, e à s vezes a nossa visão não é a melhor. Então, se soubermos ouvir, se transmitirmos isso para a equipe, a gente consegue resultados mais expressivos. É o que tem acontecido, uma gestão bem avaliada, que tem sabido conviver com as crÃticas e tirado proveito delas. Eu acho muito positivo, acho uma observação que fazem em relação à gestão, muito positiva.
FOLHA - Mesmo as crÃticas da oposição?
KASSAB - Talvez porque eu saiba conviver até com a oposição. Eles sabem que muito foi aproveitado até de crÃticas que eram pertinentes, consistentes, e foram aproveitadas.
FOLHA - O sr. não se incomoda de aceitar crÃticas da oposição?
KASSAB - Não. Só falta essa, eu achar que não pode ter oposição ou de que tudo o que vem da oposição não tem sentido. Muita coisa tem sentido.
FOLHA - O sr. já foi oposição?
KASSAB - [Pausa de 5 seg.] Olha, eu já fui oposição. Eu já fui uma pessoa dissociada de muitos governos na minha vida. Enquanto Legislativo eu não fui oposição nas circunstâncias em que ocupei os meus cargos, mas já fui oposição, já trabalhei contra governos, já manifestei indignação. Não é por isso que eu não entenda a importância da oposição.
FOLHA - Hoje, o seu partido faz oposição ao governo federal. Mas o sr. faz elogios públicos ao governo federal.
KASSAB - Eu acho que na medida em que, mesmo sendo oposição, nós reconhecemos os méritos e acertos do governo, você tem muito mais legitimidade para questionar e para divergir. Todos sabem, por exemplo, que eu torço que o Serra seja candidato a presidente da República e que se eleja presidente da República. Eu tenho no Serra hoje, além de uma pessoa amiga, próxima, conselheira, do ponto de vista polÃtico um lÃder, e tenho muita legitimidade de defender o seu nome como presidente, primeiro como candidato, depois como presidente, e até mesmo faço isso ressaltando alguns méritos do atual governo. É evidente que se eu achasse que o governo só acerta eu não estaria aqui defendendo o nome do Serra para presidente. Mas sou grato ao presidente Lula, ao governo federal, tem uma parceria correta com a cidade de São Paulo, do ponto de vista pessoal comigo, republicana. Seria da minha parte algo que não me faria sentir bem se eu não exteriorizasse esse sentimento.
FOLHA - Como o DEM tem discutido a candidatura Serra para presidente?
KASSAB - Nós tivemos uma convenção do partido dois ou três anos atrás e eu deixei claro publicamente em discurso que o meu caminho estava traçado: que eu iria defender a candidatura do Serra a presidente. Então é uma posição muito clara, marcada há muito tempo. Não estou me envolvendo nas questões partidárias, nas articulações, mas tenho uma posição clara, que não irá mudar, de torcer pela candidatura do Serra e é evidente que eu espero que o meu partido também dê apoio. Mas a minha preocupação e responsabilidade é administrar São Paulo. É uma responsabilidade muito grande que não é compatÃvel com outras ações, nem partidárias nem de articulação.
FOLHA - Não faz parte de administrar São Paulo fazer articulações polÃticas?
KASSAB - Mas eu estou afastado. Minha prioridade é mesmo a ação de governar São Paulo.
FOLHA - Governar São Paulo não pressupõe negociar com os partidos aliados?
KASSAB - Na cidade, isso é lógico.
FOLHA - Mas a composição do governo paulistano não reflete nas discussões nacionais e estaduais?
KASSAB - As ações são locais, municipais. No momento certo, evidentemente dessa eu vou participar, vamos ter a definição das candidaturas a governador, e já disse e repito aqui que existe uma aliança que vai muito bem na prefeitura e no Estado, a aliança quando vai bem se confunde com o partido. O partido tem um presidente, a aliança tem um lÃder, em São Paulo esse lÃder é José Serra, e ele saberá a hora certa de iniciar esses entendimentos e, com certeza, vamos segui-lo.
FOLHA - O sr. defende a candidatura do secretário da Casa Civil, Aloysio Nunes Ferreira Filho?
KASSAB - Eu entendo que as eleições do ano que vem tem três pessoas muito bem posicionadas para serem candidatas a governador, os três são secretários do Serra: o [Guilherme] Afif Domingos [DEM, secretário do Emprego e Relações do Trabalho], o Geraldo Alckmin [PSDB, secretário de Desenvolvimento] e o Aloysio Nunes [PSDB, secretário da Casa Civil]. Cada um com suas qualidades, com sua experiência. Na hora certa o Serra, como lÃder dessa aliança, vai saber promover os entendimentos para que a gente tenha uma aliança com unidade, com propostas e em condições de vencer as eleições para continuar o bom trabalho que ele vem fazendo.
FOLHA - Mesmo com o Alckmin disparado nas pesquisas para o governo?
KASSAB - Eu não sou nem a favor nem contra o Alckmin. Todos sabem a simpatia que eu tenho pela candidatura do Aloysio Nunes. Não foi governador, é uma pessoa experiente, uma pessoa séria, e a questão da pesquisa, nas eleições municipais foi a mesma coisa [Alckmin aparecia muito à frente de Kassab]. Mas não é por isso, que eu estou fazendo esse comentário, que eu vou ficar contra o Geraldo Alckmin. Acho que é um direito a minha manifestação de simpatia e ela não destoa da minha posição de respeitar e de seguir o governador José Serra naquilo que for o entendimento definido por ele quando ele assumir esse processo e der sequência às ações.
FOLHA - Dizem no meio polÃtico que este ano o sr. efetivamente tomou posse da prefeitura, que antes o sr. administrava com a equipe do Serra.
KASSAB - É uma maldade, maldade de alguns. A administração é a mesma. São cinco anos de uma gestão de oito e a administração tem, em todos os momentos, suas peculiaridades, suas mudanças, os seus quadros. É impossÃvel, qualquer que seja uma gestão, você permanecer sempre com os mesmos quadros. Nós temos secretários vindos dos mais diversos partidos e é uma equipe muito técnica, sempre foi e continuará sendo.
FOLHA - O PSDB reclama muito de perda de espaço.
KASSAB - PSDB e DEM na prefeitura se confundem, é uma coisa só, uma aliança sólida, muito integrada, que oferece bons resultados. Meu lÃder do governo é do PSDB, meu secretário de Governo é do PSDB, meu secretário de Finanças é do PSDB, secretário da Saúde, secretário da Educação.
FOLHA - Secretário de Esportes.
KASSAB - De Esportes. Então é maldade.
FOLHA - E por que o PSDB brecou a votação do reajuste salarial dos secretários?
KASSAB - Não brecou. A primeira pessoa que veio me pedir para reavaliar essa questão, para que venha com um pouco mais de embasamento, foi o vereador [Domingos] Dissei, que é do DEM. Isso não quer dizer que não teve vereadores do PSDB, do PT, que me visitaram pedindo o mesmo. Eu achei correto, não custa nada agregar alguns estudos, algumas análises que foram pedidas.
FOLHA - A proposta de aumento dos salários dos secretários está mantida?
KASSAB - Dentro de um processo de avaliação de reforma administrativa um pouco mais ampla, com mais cuidado em termos de agregar algumas análises que foram pedidas, subsÃdios, outros estudos. Foi uma absoluta cordialidade polÃtica essa decisão. Ela foi adotada num clima supercordial.
FOLHA - O sr. já pensa ou discute a eleição de 2012? Dizem que já há candidatos se preparando.
KASSAB - Seria uma inocência muito grande as pessoas acharem que você vai definir uma sucessão municipal numa cidade como São Paulo antes de ter definido o quadro de governo do Estado e presidência da República, ainda mais no primeiro ano de uma gestão. É uma infantilidade. Essas afirmações ou suposições vêm de analistas que não têm experiência seja no campo polÃtico ou de comunicação.
FOLHA - As pessoas não se preparam com mais tempo para assumir um cargo como esse? O sr. não se preparou?
KASSAB - Não, eu estou na vida pública, abracei a carreira, gosto da vida pública, procuro exercê-la com bastante responsabilidade, mas não estava nas minhas previsões ser vice-prefeito de São Paulo. Fui convidado, acabei assumindo. Ao assumir a vice-prefeitura eu não imaginava que pudesse assumir a prefeitura com o afastamento do Serra.
FOLHA - O sr. se considerava preparado para ser prefeito?
KASSAB - Eu jamais aceitaria ser vice-prefeito, sabendo que poderia, por algum motivo, assumir a prefeitura se não me considerasse preparado. E felizmente, graças à excelente equipe que temos, temos oferecido para a cidade uma boa gestão, com bons resultados, com muitas transformações.
FOLHA - Falam muito o que sr. estaria preparando o Alexandre de Moraes [secretário dos Transportes e de Serviços] para ser o candidato do DEM.
KASSAB - É uma maldade. É um excelente quadro, assim como os outros secretários, com imensas responsabilidades, como tem também o secretário Januario, R$ 4 bilhões para fazer gestão, o secretário Alexandre Schneider [Educação]. São afirmações muito inocentes, muito infantis. Eu me sinto muito feliz de ter o Alexandre ao lado, como amigo pessoal que sou dele e como quadro qualificado que entendo que ele é.
FOLHA - Ele é um super-secretário?
KASSAB - É um secretário com muitas responsabilidades, são duas pastas com grandes responsabilidade, como têm outros secretários. E estou muito feliz com os resultados que ele tem oferecido.
FOLHA - Com todos os secretários?
KASSAB - Com todos.
FOLHA - E essas mudanças mais recentes, como a saÃda do secretário Manuelito Pereira Magalhães Jr, do Planejamento? Ele saiu aparentemente magoado.
KASSAB - Não é verdade, saiu feliz, continua na prefeitura, continua integrando dois conselhos, agora vai assumir mais dois conselhos por conta da sua experiência, para me ajudar nos conselhos das empresas, para dar uniformidade à s ações. É uma maldade, todos sabem da ligação dele com o Serra, da reaproximação fÃsica por conta da importância e dos futuros projetos que se apresentam para o Serra. É uma afirmação totalmente equivocada.
FOLHA - O DEM quer indicar o candidato a vice-presidente na chapa do Serra?
KASSAB - Na minha visão, o Serra sendo candidato, e eu espero que ele seja, o vice ou a vice vai ser alguém que componha bem administrativamente, que possa ser um bom vice-presidente, que possa ajudá-lo a comandar o paÃs, portanto que tenha competência administrativa. E também que possa ajudá-lo eleitoralmente. Não é importante que seja do DEM. Minha posição é essa.
FOLHA - Já falam em Itamar Franco [PPS].
KASSAB - Por isso que eu disse: diante das circunstâncias e como for desenhada a aliança deverá em um processo com muita análise ser escolhido pelo candidato a presidente, em conjunto com a aliança, mas a questão partidária na minha avaliação não é importante. Importante são as qualificações do vice.
FOLHA - Essa aliança um dia vai acabar?
KASSAB - Em São Paulo ela é muito sólida. Eu falo por São Paulo. Espero que ela se consolide cada vez mais, e também no plano nacional.
FOLHA - Mas talvez o PMDB não pode querer ter um candidato a prefeito? O PSDB não pode querer? O DEM também?
KASSAB - Na cidade eu acho que ela é muito sólida, não vejo problema.
FOLHA - Qual é a sua prioridade para 2010?
KASSAB - Consolidar e dar sequência, talvez com velocidade maior, todas as ações que foram iniciadas. E algumas iniciar, como a questão dos hospitais.
FOLHA - E no campo pessoal?
KASSAB - Estou bastante feliz. É uma carreira que eu escolhi para a minha vida e é evidente que eu tenho um sentimento de muita alegria de poder estar realizando um bom mandato como prefeito, um cargo difÃcil, com muita responsabilidade, sendo respeitado, tendo oportunidade de constituir uma boa equipe. Então, eu me sinto bastante realizado e espero continuar com esse sentimento até o final da gestão. Vou me esforçar muito para continuar tendo esse mesmo respeito da cidade. Meu esforço é muito grande, trabalho bastante, mas com prazer, com muita vontade de acertar, com muita humildade para corrigir e aperfeiçoar as ideias, diferentemente do que falam, com muita vontade de encerrar o mandato com uma realização muito expressiva a favor da cidade, com transformações muito concretas nesses oito anos.
FOLHA - O sr. tem mais três anos de mandato, mas já pensa o que vai fazer depois que acabar a gestão?
KASSAB - Eu só penso no dia seguinte. No dia seguinte eu espero que o sentimento da cidade seja de reconhecimento e orgulho dos nossos sete anos de prefeito.
Fonte: Jornal Folha de São Paulo