| Hoje é Dom 05 Set, 2010 09:37 pm |
Dois consórcios brigam para conquistar o direito de tocar projeto de revitalização da área
BRUNO RIBEIRO, bruno.ribeiro@grupoestado.com.br
O sucesso ou fracasso da última tentativa da Prefeitura em restaurar a região da cracolândia está nas mãos de dois consórcios de empresas. A segunda (de três) etapa do projeto Nova Luz, que vai decidir o que será feito na região, terminou na última sexta-feira, habilitando dois grupos para seguir na disputa.
Essa licitação é diferente das que costumam ocorrer na cidade. No lugar de escolher um projeto, o processo público está definindo quem é o grupo mais habilitado a propor as mudanças na região. O projeto prevê uma concessão urbanística - que permite, inclusive, desapropriações bancadas pela iniciativa privada na área -, mas preservando o patrimônio histórico instalado lá e garantindo a construção de moradias populares.
Dos cinco consórcios de empresas que se inscreveram nessa licitação, três foram desclassificados na sexta-feira após o fim da análise das propostas técnicas de cada grupo. A eliminação foi oficializada na edição de sábado do Diário Oficial do Município.
Essa análise atribuiu pontos aos dois consórcios finalistas. Na frente, está o consórcio Concremat/Cia.City/Aecom/FGV, com 81,3 pontos. Na outra ponta, está o Consórcio Nova Luz, com 75 pontos. Agora, para que o vencedor seja apontado basta a abertura dos envelopes com as propostas de preços dos dois grupos.
Nenhum dos consórcios adianta o que vai acontecer com a cracolândia. Ambos ficam no senso comum ao dizer que é preciso preservar o patrimônio histórico da região e, ao mesmo tempo, oferecer alternativas que possibilitem a ocupação da área por moradias e por polos geradores de empregos, garantindo a ocupação da área 24 horas por dia.
O escritório de arquitetura Piratininga, com sede no bairro da Consolação, faz parte do Consórcio Nova Luz. O arquiteto José Armênio de Brito Cruz, um dos quatro sócios do escritório, diz que o interessante na proposta da Prefeitura é a “pergunta” feita pela gestão Gilberto Kassab (DEM): o que fazer com a região? “A questão urbana ainda está engatinhando no Brasil. As cidades são a grande obra do homem no século 20 e é preciso repensar a ocupação delas”, afirma. “Boas respostas dependem de boas perguntas”, diz o arquiteto, que completa: “Esta questão colocou São Paulo no centro das discussões sobre urbanismo no mundo”.
A afirmação é verdadeira. A revitalização da Luz já foi tema do Urban Age, um congresso internacional que discute soluções para as megacidades.
José Bicudo, presidente da Companhia City, membro do outro consórcio, confirma que o projeto é um desafio. Diz que a área é complexa - por conta do patrimônio existente e a necessidade de garantir moradias populares e dá algumas pistas sobre o que pode ser feito: “O patrimônio (arquitetônico) poderia ser incorporado a outras construções”, fazendo a ressalva que isso depende de autorização de órgãos de proteção ao patrimônio.
A Companhia City existe há quase 100 anos na cidade e foi responsável pela urbanização de diversos bairros - hoje considerados zonas nobres. Bicudo afirma que, com poucas áreas disponíveis para mais empreendimentos na capital, seria natural a empresa participar do certame. “(O projeto) tem de dar condições não apenas para morar (na cracolândia), mas morar com qualidade.”
RAIO X DAS EMPRESAS
CONSÓRCIO NOVA LUZ
Experiência em revitalização
Empresas do consórcio: Logos Engenharia, Piratininga Arquitetos Associados, RTKL Associates e Arcadis Tetraplan
Principais projetos: A Piratininga tem histórico de revitalização de cartões postais da capital, como o Edifício Martinelli (foto), as calçadas da Estação da Luz e a Biblioteca Mário de Andrade.
A Logos participou da construção da Linha 5-Lilás do Metrô, da primeira etapa do Metrô de Salvador (BA) e de diversas obras para o tratamento de esgoto para a Sabesp.
A Arcadis Tetraplan é associada da Logos.
A RTKL, uma empresa norte-americana voltada à gestão de projetos, fambém faz parte do grupo.
CONCREMAT/CIA.CITY/FGV/AECOM
Conhecimento centenário
Empresas do consórcio: Concremat Engenharia, Companhia City, Fundação Getúlio Vargas e Aecom.
Principais projetos: A Concremat é uma das maiores empresas de engenharia do País. Participa de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em três estados. Em São Paulo, fez supervisão das obras e gerenciamento social do Rodoanel (foto), do governo do Estado.
A Companhia City existe desde 1911. Fez a urbanização de bairros como Pacaembu, Alto da Lapa e Alto de Pinheiros. Avenidas como a 9 de Julho foram construídas pela companhia.
A Aecom é uma empresa americana ligada a projetos de engenharia
HISTÓRICO
Diversas soluções já foram apresentadas para a cracolândia. Até agora, nenhuma teve sucesso:
JUNHO 2004
Prefeitura assina contrato com o BID para revitalização do centro, que prevê investimentos de US$ 100,4 milhões do BID e
US$ 67 milhões da administração municipal
OUTUBRO DE 2005
O projeto de incentivos fiscais para a região prevê redução de IPTU, ISS e ITBI (cobrado em transações imobiliárias). Até hoje, só duas empresas se interessaram
MAIO DE 2006
Anunciada a demolição de 23 quarteirões, com 1.500 imóveis, para dar lugar a novos edifícios-sede de 11 prédios públicos. A mudança também não foi para a frente
MARÇO 2007
O arquiteto Jaime Lerner, eleito recentemente uma das 100 pessoas mais importantes do mundo pela revista Time, faz um estudo sobre mudanças na área, a pedido de empresários
JULHO DE 2007
A Prefeitura inicia o atual Projeto Nova Luz, que prevê a concessão urbanística da área
DEZEMBRO DE 2009
Cinco grupos de empresas se inscrevem para participar do novo processo
ABRIL DE 2010
As duas primeiras etapas do processo de licitação são encerradas. De cinco inscritas na disputa, duas permanecem
Fonte: Jornal da Tarde