Domingo, 09 de Agosto de 2009

Da Itália, uma saída para a Cracolândia

O juiz Walter Fanganiello Maierovitch crê na recuperação de dependentes de crack e cita como modelo a experiência da comunidade de San Patrignano, na Itália.

Luiz Henrique Fruet


À primeira vista, o conjunto de construções que se espalha pelas colinas de Coriano, em Rimini, um dos pontos mais badalados da costa italiana do Mar Adriático, pode passar por um bem-sucedido complexo empresarial. Lá produzem-se desde vinhos, queijos, azeites e salames a móveis, tapetes, flores e bicicletas de corrida; imprimem-se jornais e revistas; criam-se e adestram-se cavalos e cães de raça. A diferença está no perfil dos 1.600 trabalhadores dessa empresa sui generis, a San Patrignano: são todos dependentes de drogas em fase de recuperação.


Mais do que um sucesso de mercado, a marca San Patrignano tornou-se sinônimo de um dos mais bem-sucedidos programas de recuperação de drogados no mundo. Cerca de 70% dos dependentes que ali chegam recuperam-se totalmente num prazo entre dois e três anos. É essa promissora experiência que o desembargador aposentado Walter Fanganiello Maierovitch, que, entre outras atividades, foi o primeiro ministro da Secretaria Nacional Antidrogas, no governo Fernando Henrique Cardoso, sugeriu para a recuperação dos dependentes de drogas da região da Cracolândia.


Maierovitch citou o exemplo de San Patrignano em uma entrevista à rádio CBN e o secretário de Controle Urbano da Prefeitura de São Paulo, Orlando de Almeida, um dos encarregados do projeto Nova Luz (recuperação da região da Luz conhecida por Cracolândia) ouviu e gostou. Tanto que já entrou em contato com a entidade italiana, propondo um acordo para implantar a experiência na recuperação dos dependentes de crack em São Paulo. Nesta entrevista, Maierovitch defende como tratar com dignidade e eficiência os dependentes da Cracolândia.

Diário do Comércio - É possível recuperar dependentes de crack?

Walter Maierovitch - Não existe dependente químico irrecuperável, assim como não existe droga ilícita que faça bem à saúde. Todo mundo sabe que a droga causa problemas à saúde, mas pouca gente lembra que o usuário de drogas, o dependente, pode ser, se quiser, recuperado. Esse é o ponto básico. Não há dúvida em relação à recuperação.

DC - Por que, então, ainda não se resolveu o problema da Cracolândia?

Maierovitch - Não vou usar essa expressão batida de que falta vontade política. Mas o fato é que muitos anunciaram ações ali, só que erram o alvo. Por que? Vamos olhar o que está acontecendo agora e o que aconteceu no passado. Qual é a grande meta? É fazer a reurbanização, que está em curso agora. Mas ninguém quer reurbanizar com o aproveitamento de uma situação que existe ali, que é de recuperar os dependentes,  ajudando-os. Ninguém pensa em criar uma comunidade terapêutica para recuperar os dependentes que estão ali, que vêm de vários lugares, mas se concentram ali. Quer se empurrar o gueto do crack para outro lugar que não atrapalhe a reurbanização. Isso é desumano, é desrespeitoso.

DC - Mas as autoridades encaminham dependentes que aceitam para tratamento, não?

Maierovitch - Na verdade, eles não sabem como recuperar. Vejamos o que se fez agora: vários jovens dependentes foram encaminhados para tratamento. Onde? Em Pirituba, no hospital psiquiátrico. Que aconteceu? Chegaram lá e quebraram tudo. Esse trabalho de reintegração tem uma regra básica, que aqui não é seguida: o protagonista do processo de tratamento deve ser o usuário. Ele é que vai escolher o caminho, vai se reintegrando, vai aprendendo, tem de se sentir o protagonista. Não é a instituição, mas o usuário que tem de atuar. E depois da recuperação, finalmente ainda tem a reinserção social. Aí ele já tem uma atividade profissional, um encaminhamento, e fica mais fácil.

Como isso deve ser feito, então?

Maierovitch - Está comprovado cientificamente que o usuário de crack tem um rebaixamento intelectual. Isso significa que ele já não tem mais noção de que o uso daquela  droga está acabando com seus neurônios e que ele vai cair cada vez mais. Existe um rebaixamento violento da capacidade intelectiva. Em lugares em que se cuida melhor, em que se dá um tratamento melhor para esse problema, sem querer empurrá-los para fora das vistas de uma classe social, colocam-se operadores que vão frequentar essas comunidades e vão convencer os usuários a se submeter a tratamento. Para isso é indispensável a proximidade de uma comunidade terapêutica. Tem de se construir na Cracolândia uma comunidade terapêutica. E não construir na periferia de São Paulo, porque não vai funcionar.

DC- Mas há muitos casos em que os dependentes de drogas não aceitam tratamento...

Maierovitch - Daí a importância de ter operadores, para que possa se convencer as pessoas. Porque tratamento forçado não dá certo. Então é muito melhor se colocar grupos de convencimento e não promover operações rápidas, como está sendo feito agora pelo governo e Prefeitura: 'pegamos essa garotada e levamos para o hospital psiquiátrico'. Lá se está fazendo o quê? Se está desintoxicando. Mas adianta alguma coisa desintoxicar e depois largar? É um primeiro passo mal dado, porque o grande primeiro passo é no sentido de esses agentes comunitários convencerem o usuário e o usuário ter um lugar de acolhida, onde vai ter uma formação, um trabalho, um divertimento.


DC - Onde se faz isso melhor?

Maierovitch -  Em vários países, com destaque para a comunidade terapêutica de San Patrignano, na Itália, que deu muito certo, tem um índice de 72% de sucesso. Ou seja, 72% dos que deixam o lugar, depois de em média dois anos, não voltam a usar drogas. É um índice altíssimo, jamais conseguido por um outro lugar. Normalmente, o sucesso é de 15%. Lá eles têm uma área, com pessoal especializado, atividades multidisciplinares, vários profissionais.

DC - Mas na Itália a comunidade é num lugar retirado, uma grande fazenda. Por que aqui teria que ser na Cracolândia?

Maierovitch - Porque você precisa ter um posto para fazer todo o convencimento e depois poder fazer a transferência, que pode ser para uma entre várias atividades, dependendo da inclinação de cada um.