| Hoje é Dom 01 Ago, 2010 06:37 am |
''Fiz o que era do interesse da cidade''
Para Kassab, a população considera justos os reajustes de IPTU e de ônibus e a retenção da taxa de inspeção veicular
Bruno Tavares e Iuri Pitta

Entrevista
Gilberto Kassab: prefeito de São Paulo
Gilberto Kassab (DEM) é um prefeito otimista: encerra 2009 satisfeito com o próprio desempenho e confiante de que a população vai compreender medidas como os aumentos do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e da passagem de ônibus e a retenção da taxa de inspeção veicular em 2010. "As pessoas precisam ter respeito por mim, no sentido de saber que estou zelando pelos interesses da cidade", disse. Ao avaliar seu primeiro ano de mandato como prefeito eleito, Kassab destacou avanços nos "pilares" da gestão - educação e saúde - e os projetos em "transporte público" - com metrô e monotrilho ganhando espaço e receita antes destinados aos ônibus.
A cidade está melhor em 2009 do que em 2008?
Não tenho dúvidas. A cidade avançou em diversas áreas, principalmente em saúde e educação, pilares da gestão. Avançamos em uma das prioridades administrativas, que é a transparência. Algumas transformações importantes, como o meio ambiente, os parques criados, a inspeção veicular que hoje é nacional. Na questão das ações vinculadas à gestão mais austera, nós acertamos na dosagem, tanto é que fechamos o ano sem nenhum problema na cidade.
O ano termina sem problemas financeiros, mas houve as enchentes e a situação do Jardim Romano. Isso não está relacionado aos cortes orçamentários?
Não, até porque o Jardim Romano é algo que se arrasta há 30 anos. Pela primeira vez, uma administração enxergou o problema e trouxe um projeto - isso faz três anos, que é o projeto Parque Linear Várzea do Tietê. Esse projeto apresentado pelo governador e por nós prevê a solução definitiva de moradia para essas famÃlias, em função da constatação de que a impermeabilização chegou a tal ponto que agora choveu, alagou e a drenagem não é suficiente. Infelizmente, os últimos 30 anos de administrações erraram: além de não retirar as famÃlias, incentivavam as famÃlias. Por que nós pudemos responder rapidamente ao problema? Porque nós já tÃnhamos o projeto.
Está convicto de que a Prefeitura agiu de forma rápida? Que os moradores acham isso?
Sim, todos sabem. Em duas semanas as questões estão todas encaminhadas. As pessoas lá não podem estar satisfeitas. São pessoas desesperançadas. Uma famÃlia que tem como única opção morar naquele local... O importante é que nossa resposta já existia e, no curto prazo, fomos bastante presentes.
São Paulo é uma das cidades que menos usou recursos do programa federal Minha Casa, Minha Vida. Por quê?
São Paulo tem uma diferença em relação a outros municÃpios, que são as áreas (para as unidades). Nesse projeto da zona leste tem recursos do Minha Casa, Minha Vida.
Ainda sobre habitação, e as remoções na Av. Roberto Marinho?
Não é uma simples remoção, é um projeto habitacional. As pessoas vão morar em construções em condições de dignidade. E com recursos já reservados dos Cepacs (Certificados de Potencial Adicional de Construção). É um grande projeto de reurbanização.
É uma meta entregar o projeto até o final do seu mandato?
É difÃcil falar em prazos. Os recursos existem. A obra é não só o túnel, a avenida e a urbanização, mas também a construção de 10 mil moradias. E já temos recurso, o que nós dá a tranquilidade de dizer que é um projeto irreversÃvel.
Será o grande projeto da gestão?
Não, o grande projeto nosso é saúde e educação.
Mas em relação a transporte...
É metrô. Após 30 anos, a cidade investe em metrô. É um absurdo, é constrangedor. Estamos provando que é possÃvel investir no metrô, tanto que vamos investir R$ 2 bilhões em oito anos.
Mas o metrô é uma obra do governo do Estado.
É uma mentalidade velha, arcaica, de quem quer por nome em placa, tem a vaidade de fazer licitação. Eu estou preocupado com a cidade. As pessoas cumprimentam na rua a gestão: "Puxa vida, é isso mesmo, é metrô." O prefeito não querer colocar dinheiro no metrô é uma coisa de 50 anos atrás.
Mas foi a conjuntura polÃtica que permitiu isso, com o sr. na Prefeitura e Serra no governo estadual.
Não, qualquer que fosse o governador. É uma questão de convicção. Era um compromisso meu e do Serra, que estamos honrando.
Não se tem deixado de lado a construção de corredores de ônibus? O sr. não fez nenhum quilômetro.
Meu compromisso é de três corredores de ônibus, está no Plano de Metas: o Expresso Tiradentes, o Celso Garcia e o da zona sul. O Celso Garcia vai ser na forma de metrô, é um upgrade. O Expresso Tiradentes e o corredor zona sul vão ser na forma de monotrilho. Isso mostra que a nossa prioridade é o transporte público.
Mas e os ônibus? Os modais não devem se complementar?
Aqui não se complementa, se substitui. Tenho compromisso de três corredores, consegui viabilizar, porque é mais caro. Aqui, em vez de 500 mil pessoas usarem ônibus, vão usar metrô. Aqui, em vez de 500 mil pessoas usarem ônibus, vão usar monotrilho. Vai diminuir o número de ônibus, o que é muito bom para a cidade.
E quem depende do ônibus? O ano começa com aumento de tarifa.
Depois de três anos.
Mas o passageiro vai pagar mais.
Eles compreendem. É inédito isso. Depois de 30 anos, é a primeira vez que ficaram três anos sem ter reajuste.
A retenção do valor da inspeção veicular não soa como nova taxa?
De jeito nenhum. Os milhões de pessoas que usam transporte público acham que quem tem o transporte individual agora não pode ter essa restituição. Se você acha (que é) uma taxa, então o governo federal que explique. Agora, você vai perguntar a minha opinião em relação a essa medida? Eu apoio, acho correto. Seria privilegiar o transporte individual. Não tem sentido. Tanto é que não teve reação.
A reação foi de mais um custo.
O dinheiro não cai do céu. Você acha justo colocar R$ 300 milhões na inspeção veicular? Neste ano, como não era obrigatório, quem fez, a Prefeitura restituiu. Estou preocupado com o ar da cidade. Agora que é obrigatório, não vou te dar R$ 50 e deixar de pôr no metrô. Entendeu a filosofia?
A filosofia do sr. mudou a partir da resolução federal? Por que começou restituindo e voltou atrás?
Porque antes não era obrigatório, era ambiental. Agora é obrigatório. Acho justo socialmente. Duvido que algum municÃpio vá restituir. Só falta essa. Pago para ver.
O sr. encerra o ano com aumento do IPTU e da passagem do ônibus e a inspeção ambiental. Houve queda na aprovação do governo. Preocupa esse desgaste polÃtico?
Fui eleito para fazer o que é correto, o que é importante para a cidade. As pessoas precisam ter respeito por mim no sentido de saber que estou zelando pelos interesses da cidade. Entendo que o IPTU tem de ser atualizado e, em relação à tarifa do ônibus, se pudesse, ficaria mais um ano sem dar (reajuste), porque a prioridade é estar ao lado dos menos favorecidos.
A população vai compreender?
Para mim, o importante é que se saiba que não está sendo criada taxa, que não estão sendo aumentados impostos.
A gestão do sr. é uma vitrine para o seu partido, principalmente depois do escândalo no Distrito Federal. Como lida com isso?
Minha preocupação é com a cidade. Sou prefeito para corresponder à expectativa dos paulistanos. O cidadão não está preocupado com partido. Não existe partido na gestão. Aqui existe aliança, com o PSDB, com o PPS, com o PV.
É possÃvel imaginar uma fusão de partidos?
Em São Paulo, essa aliança é sólida, como se fosse um partido só. Evidente que, se tiver a mesma identidade no plano nacional, é como se fosse uma coisa só. Não tenho porque não falar que não é boa a fusão, mas isso são circunstâncias que podem ou não ocorrer. Nas próximas eleições precisamos reproduzir essa aliança novamente para o governo do Estado e no plano nacional, se possÃvel.
O sr. tem candidato para o governo do Estado?
Meu candidato vai ser o candidato do governador José Serra. Tem vários nomes sendo apresentados: o secretário Aloysio Nunes Ferreira Filho, por quem todos sabem que eu simpatizo, o secretário Geraldo Alckmin e o secretário Afif Domingos, sem falar no vice-governador, Alberto Goldman.
O sr. não?
Não. É meu primeiro mandato majoritário. Assim como eu senti quando o Serra era prefeito que a cidade pedia para ele sair, as pessoas pedem para eu não sair. Eu tenho o compromisso de não sair. Vou ficar até o final.
Fonte: Jornal O Estado de São Paulo