Sábado, 14 de maio de 2010

TIAGO DANTAS

Incertezas, falta de diálogo, redução nos lucros e dificuldade para reformar e vender imóveis. Na opinião de comerciantes da região da Rua Santa Ifigênia, polo de comércio eletrônico do centro de São Paulo, este é o saldo de um ano de vigência do Projeto Nova Luz. Em 11 de maio de 2010, o prefeito Gilberto Kassab anunciou as empresas responsáveis por planejar a revitalização de 45 quarteirões dos bairros da Luz e Santa Ifigênia, no centro. O prazo para a entrega da proposta expira em 14 de julho.

A ideia da Prefeitura é ceder uma área de 500 mil m² a empresas privadas, que ficariam obrigadas a fazer obras de reurbanização em troca da exclusividade na comercialização dos imóveis situados dentro do perímetro formado pelas avenidas São João, Ipiranga, Duque de Caxias, Cásper Líbero e pela Rua Mauá. A constitucionalidade da proposta está sendo discutida na Justiça. Os comerciantes propõem que a administração municipal desista da Nova Luz e crie um projeto conjunto com moradores e lojistas.

“Não vamos trocar nossa história e nosso suor por uma maquete”, afirma o engenheiro Arthur Abduch, proprietário de uma loja de lâmpadas especiais na Rua Santa Ifigênia. A família Abduch está há pelo menos 120 anos na região. “A gente não é contra a revitalização. Nossa preocupação é o que vai acontecer enquanto estiver em obras. Não adianta achar que essa rua vai se replicar em outro lugar. As pessoas vêm aqui porque sabem que encontram tudo o que precisam”, opina Abduch.
A Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano informou que “o estudo em andamento prevê que a implantação do projeto ocorra em fases de forma que minimize os impactos sobre o comércio existente”. Mas não é isso o que os comerciantes querem. “Nossa região precisa de melhorias”, admite o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) da Santa Ifigênia, Joseph Riachi, dono de 15 lojas na região. “Mas esse projeto não é de melhoria. É de descaracterização e de especulação imobiliária.”

Riachi tem recebido reclamações de associados à CDL que estão com dificuldades para tirar documentos para reforma na Prefeitura. Um comerciante de 58 anos, que pediu para não ser identificado, por exemplo, diz que faz seis meses que tenta, sem sucesso, autorização para ampliar um galpão de 700 m² na Rua General Couto de Magalhães. “Falaram que era área de desapropriação e que ia ser difícil. Estou perdendo R$ 300 mil por mês nessa história”, diz.

As reclamações não são exclusivas da Santa Ifigênia. O comerciante Nazim Mohamed, de 47 anos, dono de uma loja de peças para motos na Rua General Osório, diz que “tem fabricante e fornecedor mais preocupados do que lojista por aqui”. “O medo do que pode acontecer com a região e a propaganda de que o bairro todo é uma cracolândia atrapalham os negócios”, sentencia Luiz Vieira, de 45, dono de lojas nas ruas do Triunfo e dos Andradas.

A Prefeitura não comentou a possibilidade de elaborar um novo projeto de revitalização para a área, em parceria com lojistas e moradores. Por meio de nota, informou que a “participação de comerciantes e moradores é desejável e está sendo estimulada”. O texto também diz que “todas as sugestões em relação ao projeto estão sendo levadas em conta no seu aprimoramento”.

Fonte: Jornal da Tarde